Como 'Renascer' pode superar crise de audiência das novelas da TV Globo – UOL

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O ator Humberto Carrão como José Inocêncio na primeira fase do remake de ‘Renascer’ Fabio Rocha/Divulgação
Embora tenham se passado três décadas desde que “Renascer” foi ao ar, o cenário que seu remake vai encontrar, ao estrear nesta segunda-feira, guarda semelhanças vitais com o passado.
À época, a faixa das nove da Globo, que era exibida às oito, amargava uma crise inédita, quando o canal perdeu o domínio sobre a audiência ao ser desbancado pela extinta TV Manchete com “Pantanal”.
Depois de rejeitar a ideia de Benedito Ruy Barbosa para a saga de José Leôncio —com medo do quanto gastaria para produzir uma novela na região pantaneira, ainda pouco desbravada, e de os atores se recusarem a se expor aos riscos das gravações—, a Globo recontratou o autor e deu a ele liberdade irrestrita para escrever a história que é considerada sua obra-prima.
Hoje, a emissora se vê numa situação semelhante, ao chamar Bruno Luperi, neto de Barbosa, que também escreveu o remake de “Pantanal” há dois anos, para adaptar “Renascer”. É que, ainda que tenha reagido em sua reta final, “Terra e Paixão”, sua antecessora, estreou com a pior audiência da história do horário nobre da Globo.
“Travessia”, que veio antes, também teve capítulos com recordes negativos, enquanto as outras duas novelas em exibição também sofrem —“Elas por Elas” acumula os piores números históricos para a faixa das seis e “Fuzuê” é o título de menor sucesso no horário das sete em uma década.
Se a nova versão de “Pantanal” fidelizou o espectador como não se via desde “Avenida Brasil”, em 2012, a de “Renascer” poderia representar uma chance de contornar a crise. Para os cofres da Globo, a novela já é considerada um sucesso.
Com seus dois cotistas fixos, Itaú e Lacta, a obra vai arrecadar R$ 553,2 milhões. Haverá ainda outras cinco empresas, que vão desembolsar um total de R$ 65 milhões. Luperi, de 35 anos, diz ter a mesma liberdade do avô para escrever o remake.

Antes intersexual —à época chamada de hermafrodita—, Buba, que cedia aos pedidos de Zé Venâncio e fazia uma cirurgia para modificar sua genitália, agora será uma mulher trans interpretada por uma atriz trans —a estreante Gabriela Medeiros, de 22 anos.
A comunidade LGBTQIA+ também deve se ver representada com a criação de um personagem gay, ainda mantido em segredo, enquanto a pauta feminista deve ver um aceno com Zinha, que antes era Zinho, um funcionário de confiança de Inocêncio.
O padre Lívio, que vivia um dilema ao se apaixonar por Joaninha, por ser celibatário, agora será um pastor, ao lado de Iolanda, a Dona Patroa, que será uma evangélica fervorosa. A mudança pode ser compreendida como mais uma tentativa da Globo, depois da novela “Vai na Fé”, de representar os evangélicos. Até 2030, eles devem ultrapassar os católicos no posto de maioria religiosa do país.
Outras alterações são mantidas em sigilo, como os rumos de Mariana, que no passado levou Adriana Esteves a uma depressão e quase a fez desistir da carreira de atriz. Sua personagem, uma jovem apaixonada por Inocêncio e um filho dele ao mesmo tempo, causava conflitos entre a família e não era aceita pelo público.

Luperi, no entanto, diz que seu objetivo não é preencher cotas de minorias sociais ou agradar a algum público específico, mas “trazer a história para os dias de hoje e abrir o rol de discussões”. “O remake tem que ter saudosismo, mas precisa trazer um frescor com novos questionamentos”, ele afirma. “Mas não tenho uma agenda para manipular discussões. A história não pode ser maniqueísta.”
“O progressismo precisa do conservadorismo e vice-versa, senão a sociedade se torna estática. O dramaturgo deve buscar a isenção e deixar os personagens se exporem. Eu me abasteço das contradições”, diz ele.
Humberto Carrão, que interpreta o protagonista na primeira fase do folhetim, lembra a complexidade da fé do personagem como uma dessas contradições, num momento em que o Brasil vê a intolerância religiosa crescer, sobretudo contra as religiões de matriz africana —no ano passado, as ocorrências dobraram em relação ao ano anterior, segundo a Polícia Civil.
“O personagem respeita o cramulhão que ele guarda numa garrafa, o jequitibá-rei com que fez um pacto e Deus e Nossa Senhora, cujo papel ele não deixa de questionar e discutir com o padre Santo.”
Segundo Carrão, no entanto, a grande mudança é a maneira como seu personagem vê a terra. Marcos Palmeira, que interpreta o protagonista em sua fase adulta —papel que na versão original era de Antônio Fagundes—, concorda. Antes, era o filho de Inocêncio, João Pedro —justamente quem Palmeira fazia há 30 anos—, que punha a mão na massa. Agora é o pai, que rejeita a pecha de coronel.
“O novo Zé Inocêncio não quer só explorar a terra. Ele tira e devolve. É o que o momento pede. Precisamos ter outro olhar para a forma de produzir alimento no Brasil. O que estamos vivendo, este calor infernal, é fruto da exploração desenfreada das nossas riquezas naturais”, diz Palmeira, que mantém uma fazenda de produção orgânica na região serrana do Rio de Janeiro há duas décadas.
O personagem, conta a figurinista Marie Salles, é inspirado em Ernst Götsch, um agricultor suíço, considerado o criador da agrofloresta, que vive na Bahia. O conceito combina a produção de comida, a recuperação de florestas e nascentes e o fim da monocultura, para que uma espécie possa fortalecer a outra contra pragas. “É como se Zé Inocêncio tivesse brotado da terra, com camiseta e calça cargo sujas de terra”, diz Salles, ao mostra o guarda-roupa do personagem.
A mudança também é vista nos cenários. Poucos metros separam a fazenda de soja de “Terra e Paixão” e a de cacau de “Renascer” nos estúdios da TV Globo, na zona oeste do Rio de Janeiro. Mas o laranja que domina as paredes da primeira construção e o branco um tanto quanto sujo e mofado da segunda sublinham suas diferenças.
O novo folhetim se distancia da agricultura opulenta do interior de Mato Grosso do Sul, turbinada por uma fotografia de iluminação dourada e a trilha sonora do agronejo moderninho de Ana Castela, para mostrar uma Bahia de um cacau que entrou numa crise nunca mais superada plenamente, ao som da MPB de Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros artistas nordestinos.
“Vi muita pobreza em viagens à Bahia para pesquisa. É tudo muito simples. As fazendas não têm varandas largas, as madeiras são desgastadas e usam muita cal para pintar as paredes. Não tem nem muita variação de cor”, diz o cenógrafo Fábio Rangel.

Ele está entre os membros da equipe do remake de “Pantanal” que foram escalados para trabalhar em “Renascer”, sob o comando de Gustavo Fernandez, que assume a tarefa de produzir uma versão à altura da obra original, a primeira novela da Globo filmada majoritariamente fora dos estúdios, diz Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela Universidade de São Paulo.
Sob a direção de Luiz Fernando Carvalho, “Renascer” abandonou o pingue-pongue enfadonho de closes durante os diálogos, com atores que deixaram de ser enquadrados da cintura para cima e ganharam pés, para se aproximarem e se afastarem da câmera.
A filmagem, por sua vez, passou a percorrer cenários que, pela primeira vez, tinham teto, com uma iluminação que buscava a sutileza da meia-luz, das frestas de janelas e portas e das neblinas.

“Quando divulgaram que eu seria o diretor, me impressionou a quantidade de gente que me pediu para trabalhar no remake. É uma responsabilidade refazer a novela da vida de tanta gente”, afirma Fernandez, na ilha de edição.
O diretor diz não temer o público de hoje, mais sensível e com mais voz para reclamar da abordagem de temas delicados. “Precisamos ter muito mais atenção e pudor, mas a gente tem uma dramaturgia consistente e muito respeito. Por ser um remake, o espectador já tem uma compreensão.”

Benedito Ruy Barbosa, vale lembrar, escrevia com os olhos bem abertos para o “Brasil profundo” —como se convencionou chamar o retrato que ele fazia do país—, sobretudo para a estrutura fundiária nacional, uma discussão elevada à máxima potência em “O Rei do Gado”, que tratava da reforma agrária e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, o que dividia opiniões.
Na imprensa, circulavam críticas de que o autor, hoje com 92 anos e aposentado, fazia “jogral político” em “Renascer”, por cenas como a que Tião Galinha dizia que era seu direito usar a terra para alimentar sua família ou a que os personagens reclamavam da violência contra crianças depois do massacre da Candelária, no Rio de Janeiro, que aconteceu com a novela no ar.
Como o avô, Luperi vê a novela como “instrumento de transformação social”, mas não quer criar conflitos. “O Brasil e o mundo passam por um momento delicado. A novela não tem a menor pretensão de rivalizar e criar combates, mas de desarmar as intensidades e as brutalidades”, diz.
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